QUERO ACREDITAR
Mas depois de algumas solapadas da vida, fica difícil. Eu sei que as pessoas todas falam de que a capacidade de acreditar que a criança tem é uma boa inspiração. Também, difícil de seguir. Sei também que tudo é uma situação transitória, o fato de ter muitas dúvidas sobre o que há de vir, o fato de se sentir inseguro sobre tudo, o sentimento de procrastinação. Quero acreditar que em algum dia no futuro vou me lembrar disso como algo engraçado, já que nosso pouco conhecido Shakespeare nos dizia que tragédia mais tempo é igual comédia, mas está realmente difícil.
O mundo não é feito apenas de Danielas, de delegacia da polícia federal nem muito menos de Mustangs. Isso são tão somente os objetivos que me vem à cabeça agora, mas o pior de tudo isso é saber que quando você chegar neles, quais serão os próximos? A felicidade não é um destino, é uma caminhada, construída e estruturada, e por isso é importante que não pulemos etapas. Mas às vezes se torna tão tentador chegar lá, seja de qual forma for: forçando o sonho de olhos abertos em frente ao computador, nessa eterna masturbação mental que me afasta da realização de algo; ou ainda depredando o patrimônio para chamar atenção de quem só quer ver o circo pegar fogo.
É um vício, vocês não veem? O vício não está na matéria, no objeto; está, porém, na capacidade ou na predisposição que o sujeito tem de se tornar dependente daquilo. Munido da faca e do queijo na mão, alguns continuam sonhando com um copo de vinho para acompanhar o queijo. Isso é o prazer platônico de poder deixar pra depois, curtir a escolha de, mesmo tendo a capacidade, de deixa-la sem uso, sem prática.
O objetivo mesmo, o real, é ser aquilo que nenhum ser humano pode ser, é fazer aquilo que contraria as leis do tempo, do espaço e da simultaneidade. É fazer a praia vir à frente da minha casa; é estar com todos os amigos em seus lugares ao mesmo tempo; é poder ir do fusca ao mustang e fazer isso trabalhando, mas controlando o tempo necessário. Está ai a raiz do descontentamento. Saber que nessa realidade, isso é impossível. E está ai também o que pode ser a raiz da felicidade que vai nos acompanhar pra sempre; ou da eterna frustração: a capacidade que temos de construir o caminho, não de forma perfeita, mas sim da forma que possa ser lembrada e levada adiante sem que se esqueça de quem o construiu.
Não quero jogar nenhuma amizade, ou as partes de uma relação que pareçam ser uma amizade, fora. Mas parece que o feitiço virou contra o feiticeiro: ser controlado por agrados e ser tratado como manipulado, ficando à mercê da vontade daquela pessoa de “curtir a escolha”, como eu disse anteriormente, é o único jeito que tenho de, às vezes, chegar mais perto dela. Não é a melhor, mas é a única forma, e isso de maneira alguma a torna alguém que seja malevolente, por que no meu mundo ela é imaculada. E quero acreditar que ainda vou querê-la quando estiver disponível e interessada por mim. Sei que tem que ser assim essa crença, mas ai reside toda a diferença entre razão e emoção: quero acreditar X acredito, sinto que será assim. Infelizmente, não sou bom o suficiente nem para acreditar de verdade, só sei que tem que ser assim.
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