E quando o carro para?
Eis a grande pergunta: qual o objetivo? Tal pergunta não se
direciona a uma área específica da vida, trabalho, relacionamento, família,
dinheiro… é única e simplesmente “qual o objetivo?”; também não se vira à
alguém, não é o seu objetivo, não o meu, o da empresa ou o da instituição
religiosa. É como aquelas perguntas feitas por psicólogos nos filmes:
– Quem é você?
– Bom, meu nome é…
– Não perguntei seu nome! Perguntei quem você é!?
– Sou bancário e…
– Também não perguntei sua ocupação!
E assim o diálogo exemplo segue. É
uma pergunta retórica, para ser guardada ao fundo de suas conversas consigo,
aquelas mais íntimas. É para ser pensada e não respondida. É como o jarro de
Klein, a escada de Penrose; sem começo e sem fim, sua boca é também seu bojo,
seu primeiro passo é também seu último.
À essa introdução dá-se a causa do
título. O que faz um cachorro que corre desesperado atrás de um carro quando
ele para? QUAL O OBJETIVO? E nesse caso metafórico sim, podemos especializar a
pergunta: qual era o objetivo do animal ao correr atrás do carro? Duas
hipóteses me vem a cabeça: independente de consciência, tinha ele um objetivo?;
ele era capaz de compreender o resultado que o objetivo que tinha?
Em casos específicos de nossas vidas nos deparamos com
questões como essa. Podemos até ignorá-las, passar por cima dos
questionamentos… quando voltarem à nos circundar, nos atormentarão ainda mais
gravemente.
Eis que, a resposta – que não era pra ser respondida – que
encontrei é que as vezes devemos deixar os carros passarem, não porque não
sabemos nossos objetivos; porque talvez não estamos preparados pra entender o
resultado de se lhes alcançar. Essa resposta serve pra mim, pode não servir ao
leitor…
Enfim, alerto também sobre a pressa: o condutor do carro,
certamente não corre mais que o cachorro, se estivesse sem o veículo.
Analisemos a profundidade dessa proposição.
· Temos tanta pressa em alcançar o carro, correndo
desesperadamente, que não paramos pra analisar o porquê fazemos isso; nos
frustramos ao saber que corremos tanto, com tanto afinco, atrás de algo que não
podemos nem lidar nem compreender;
· Correr não significa ser mais rápido, eis que o
condutor, como já disse, não corre mais que o animal, quando sem o veículo;
portanto, quando vemos os outros passeando em seus objetivos (veículos),
“firmes e fortes” na sua escolha, na maioria das vezes, não sabem nem aonde
estão indo, nem o porquê de dirigir rápido. São meros estereótipos de sucesso que
não passam de confusão e alienação;
· Ter, nesse caso da meta-parábola, não significa
ser… “traduzindo”, não é tendo um carro, não é indo mais rápido com ele, que
significa estar certo do que se faz ou do que se quer.
Com isso, leitor, não deixemos que
ditem vossos ritmos. Não há só essa vida. Não nos conformemos com o tempo que
nos dão para estudar; que não se abaixe a cabeça para o tempo que nos concedem
para nos aprimorarmos. Aliás, não conseguimos nem mesmo definir o que é tempo,
só temos ideia de que esse ente é infinito… se é assim, por que a pressa?
Teremos todo o tempo necessário para corrigirmos todos os erros que provocamos.
Então, qual o objetivo?
Estamos num imersos num fluido de
consumismo onde se prioriza o conhecimento “adquirido”, literalmente com
dinheiro, à experiência, vivida nas sensações, na pele. Chegam ao absurdo, nas
redes sociais, a se dizer que se uma mulher tem mais livros que sapatos ela é
digna de ser agraciada com um matrimônio. Mais qual a experiência dela?
Substituir um consumismo pelo outro? É como dizer que um homem será um bom pai
se ele tiver gasto mais dinheiro no carro que tem do que em todas as cervejas
que bebeu na vida. É essa a minha observação.
Vivenciamos diariamente,
principalmente na classe-medíocre-mediana-morna-média (que não se pergunta QUAL
O OBJETIVO), um massacre às expectativas dos jovens que “se formam” em algum
curso, mexendo intimamente com suas ensinadas ambições, dizendo que um diploma
garante a felicidade eterna. Chegam ao absurdo de querer traduzir e simular que
a experiência proporcionada pela vida é mais valiosa no livro, e dizer que pode
ser aprendida através de sua leitura, e pior: que DEVE ser ADQUIRIDA nos papéis;
por que esse apego ao livro? Por que a anexação/vinculação de que quem ler mais
será mais “esperto”? Por que querer ser mais esperto? QUAL O OBJETIVO?
QUAL O OBJETIVO?